quarta-feira, 20 de julho de 2016

Deus Ex: Mankind Divided - O que esperar do game

Desde seu surgimento, em 1999, Deus Ex é um jogo sobre escolhas e consequências - característica transportada à gerações mais modernas com Human Revolution, lançado para Xbox 360, PlayStation 3 e PC em 2011. Sua continuação direta, Deus Ex: Mankind Divided, pede que a atenção do jogador se volte para as consequências.

Afinal, como denota seu próprio subtítulo, Mankind Divided é fruto direto do que acontece em Human Revolution, cuja história é recontada em um didático vídeo de 12 minutos antes do início da campanha. A humanidade foi da promessa de uma evolução ampla e irrestrita possibilitada por implantes cibernéticos - os aprimoramentos - a um futuro distópico onde as pessoas se dividem, moral e fisicamente, entre quem os têm e quem os não têm.

Este mundo dividido moldado medo e pelo preconceito permeia todas as camadas de Mankind Divided, de seu roteiro à construção dos cenários, em sua fascinante união de tecnologias imaginárias com cenas mundanas, nas quais humanos "aprimorados" por implantes mecânicos precisam de passaportes e permissões especiais só para saírem dos guetos nos quais estão confinados. Uma distopia fantástica e perfeitamente possível - perfeita para um jogo de ação furtiva cyberpunk.

Mais uma vez, o mundo de Deus Ex, em sua riqueza de detalhes, é daqueles que você quer explorar até o último pedaço. Tivemos a oportunidade de conferí-lo em uma versão quase final do jogo, em um evento realizado em São Francisco a convite da Square Enix. Lá, jogamos a parte tutorial do game - a mesma mostrada na E3 - e suas primeiras missões, tanto principais quanto secundárias, em Praga, capital da República Checa, sitiada entre muros e pontos de controle.


O jogo, ainda em primeira pessoa, com algumas ações em terceira pessoa, não é de mundo aberto, como ressaltam os produtores da Eidos Montreal presentes no evento, mas contém mapas grandes e repletos de caminhos, passagens secretas e conexões que servem perfeitamente aos estilos de jogo propostos. Assim como no game passado, invadir um local guardado por soldados é uma opção tão válida quanto esgueirar-se por um duto de ventilação, e Mankind Divided eleva estas possibilidades a um novo patamar com um cenário ainda mais detalhado e denso.

Esta liberdade de ação, tão cultuada na franquia, é boa na maior parte do tempo, mas também pode servir para quebrar a experiência. Em duas missões diferentes, uma paralela e outra principal, era necessário passar de pontos vigiados por policiais. Na paralela, foi possível fazê-lo unindo conversas - que jogaram os agentes da lei uns contra os outros - com um pouco de ação. Na principal, mais rígida, não era possível conversar, e os mapas, apesar de cheios de passagens, eventualmente levavam a situações em que tanto a abordagem furtiva quanto a do conflito direto eram efetivas, levando a uma bizarra opção de simplesmente correr até o objetivo, cumprir o que era necessário e correr de volta ao ponto inicial.

Aprimoramentos

Em Mankind Divided, as consequências valem mais do que nunca, não apenas em sua trama, onde ela sempre foi importante, mas também no que diz respeito à jogabilidade. Isso fica importante já no começo do jogo, em uma missão na qual a primeira árvore de diálogos determina quais armas serão utilizadas para a invasão de um local, seja de maneira furtiva, seja com ação intensa.

Mas uma das mais interessantes está arraigada dentro de um dos sistemas mais importantes de Mankind Divided: os aprimoramentos mecânicos que Adam Jensen tem à disposição para as suas missões - os implantes de pele que o deixam invisível, os abafadores de som que eliminam seus passos, ou as lâminas e emissores eletromagnéticos escondidos em seus braços, entre outros.

Por razões que convém não explicar por motivos de spoilers, Jensen precisa, logo no começo da campanha, restaurar seus aprimoramentos cibernéticos e, no meio do processo, descobre vários implantes escondidos e desconectados em seu corpo. Só que, ao ativar um destes aprimoramentos escondidos, o sistema do protagonista superaquece e, para estabilizar a temperatura, é necessário bloquear alguma das possíveis melhorias, abdicando dela pelo restante do jogo. Em Mankind Divided, até mesmo evoluir o seu personagem exige escolhas com as quais você precisará lidar, cedo ou tarde.

Breach

Deus Ex: Mankind Divided conta com um curioso modo chamado Breach, que aproveita as mecânicas do single-player em cenários competitivos. Seus cenários abstratos, compostos de monolitos e polígonos sem texturas, parecem saídos das missões VR do primeiro Metal Gear Solid. Seus objetivos também: no modo, você controla um hacker que precisa invadir servidores fortificados, extrair informações e voltar ao ponto inicial em um determinado tempo.

A parte competitiva do modo fica por conta da possibilidade de desafiar outros jogadores a bater seus recordes de tempo e placar, principalmente em níveis que parecem impossíveis. Não é um modo muito complexo, mas faz às vezes do multiplayer comercialmente exigido para um jogo de alto orçamento e, surpreendentemente, condiz com todo o restante do game.

Deus Ex: Mankind Divided chega ao PlayStation 4, Xbox One e PC em 23 de agosto.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Pearl Jam

Estilo e Influências


Comparado ao de outras bandas grunge do começo dos anos 1990, o estilo do Pearl Jam é notavelmente menos pesado, remontando ao rock clássico dos anos 1970. O Pearl Jam já citou diversas bandas punks e clássicas como influências, como The Who, Neil Young e Ramones. O sucesso do Pearl Jam tem sido atribuído à sua sonoridade, que combina "o rock de estádio dos anos 1970, de riffs pesados, com o barulho e a raiva do[s grupos de] post-punk dos anos 1980, sem nunca se desgrudar [...] dos refrões. O estilo de guitarra rítmica de Gossard é conhecido pelo seu senso de batidas e groove, enquanto o estilo de guitarra solo de McCready, influenciado por artistas como Jimi Hendrix, tem sido descrito como "orientado pelo sentimento" e "folk".

O Pearl Jam ampliou seu "alcance" musical através dos lançamentos subsequentes. Uma vez que Vedder tinha mais influência na sonoridade da banda, ele buscou extirpar das músicas do Pearl Jam o uso de ganchos. Ele disse, "Eu senti que, com mais popularidade, nós seríamos massacrados, nossas cabeças iriam amassar como uvas. "À época de Vitalogy, em 1994, a banda passou a incorporar mais influências punks à sua música. Já No Code, de 1996, foi uma ruptura deliberada na sonoridade estabelecida em Ten, com as músicas do álbum contendo elementos do rock de garagem, do worldbeat e experimentalismos. Após Yield, de 1998 — que foi, de certa forma, um retorno ao rock dos trabalhos iniciais da banda, o Pearl Jam se envolveu com o art rock experimental em Binaural, de 2000, e com o folk rock em Riot Act, de 2002. Pearl Jam, de 2006, foi citado como um retorno à sonoridade inicial da banda, enquanto Backspacer, de 2009, contém elementos da música pop e da New Wave.




O crítico Jim DeRogatis descreve o vocal de Eddie Vedder como um "grunhido vocal semelhante à Jim Morrison." Greg Prato, do Allmusic, disse que "[...] com seu estilo de letras confessional e seu barítono a la Jim Morrison, Vedder também se tornou um dos vocalistas mais copiados de todo o rock. "Os tópicos das letras escritas por Vedder vão do pessoal ("Alive", "Better Man") ao social ("Even Flow"), passando por preocupações políticas ("World Wide Suicide"). Suas letras invocam o uso de narrativas, incluindo temas como liberdade, individualismo e simpatia por indivíduos problemáticos.

No início da banda, Gossard e McCready eram claramente designados como, respectivamente, guitarrista base e solo; tal dinâmica, todavia, começou a mudar quando Vedder começou a tocar, em algumas ocasiões, guitarra rítmica durante as turnês de Vitalogy. Em 2006, McCready disse que "Ainda que existam três guitarras, eu acho que temos mais lugar agora. Stone Gossard vai recuar e tocar uma linha de duas notas, enquanto Eddie Vedder vai fazer algo com power chords, e eu me encaixo nisso tudo


Legado

Enquanto o Nirvana levou o grunge ao mainstream, no começo dos anos 90, o Pearl Jam rapidamente superou-os em termos de vendas, tornando-se "a banda de rock & roll americana mais popular dos anos 90", de acordo com o Allmusic. O Pearl Jam tem sido descrito como "os estilistas mais influentes do rock moderno — as perfeitamente acabadas canções explosivas em ritmo médio, como 'Alive' e 'Even Flow', melódicas o suficiente para fazerem moshers cantarem junto. "A banda inspirou e influenciou um número de outras bandas, como Silverchair, Puddle of Mudd e The Strokes. O Pearl Jam, também, tem durado mais do que seus contemporâneos do grunge, como Nirvana e, mais recentemente, Alice in Chains e Soundgarden.




O Pearl Jam tem sido elogiado pela sua rejeição aos excessos da vida de estrela do rock e por sua insistência em apoiar as causas em que acreditam. O crítico musical Jim DeRogatis disse, à época do encerramento da batalha da banda contra a Ticketmaster, que isso "provou que uma banda de rock que não é composta por cabeças gananciosas pode tocar em estádios e não sugar cada centavo do público... isso indicou que o idealismo no rock 'n' roll não é privilégio daquelas bandas dos anos 60 que estão no Hall da Fama do Rock and Roll. "Eric Weisbard, da Spin, disse em 2001 que "O grupo que uma vez foi acusado de tocar um grunge sintético agora parece tão orgânico e baseado em princípios quanto existe. "Em uma enquete realizada pelo USA Today, em 2005, o Pearl Jam foi votado como a maior banda americana de rock de todos os tempos. Em abril de 2006 a banda recebeu o prêmio de "Best Live Act" ("Melhor Atuação ao Vivo") do Esky Music Awards, da Esquire; a sinopse do prêmio se referiu ao Pearl Jam como "as raras superestrelas que ainda tocam em cada show como se pudesse ser o último. Os seguidores da banda têm sido comparados aos do Grateful Dead, com a Rolling Stone afirmando que o Pearl Jam "excursionou incessantemente e se tornou um dos maiores atos de rock de arena, atraindo um grupo de discípulos parecidos com os do Grateful Dead, com uma maratona de shows no raro espírito de Bruce Springsteen, The Who e U2.


Quando perguntado sobre o legado do Pearl Jam, em uma entrevista de 2000, Eddie Vedder disse: "Eu penso que em algum ponto ao longo do caminho, nós começamos a sentir que queríamos dar às pessoas algo em que acreditassem, porque nós sempre tivemos bandas que nos deram isso, quando precisamos de algo para acreditarmos. Esse foi o nosso grande desafio após o primeiro álbum e a resposta que ele teve. O objetivo, imediatamente, se tornou em como nós continuaríamos sendo músicos e crescer e sobreviver em vista de tudo isso... As respostas nem sempre foram fáceis, mas acho que encontramos um jeito."

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Star Trek: Sem Fronteiras é uma emocionante e divertida celebração dos 50 anos da franquia

A comemoração dos 50 anos de Star Trek teve um início conturbado. Com a saída de J.J. Abrams da direção (que agora assina apenas como produtor), o estúdio parecia ter encontrado a solução perfeita em Roberto Orci, corroteirista  dos dois primeiros filmes da nova versão.  Porém, sua inexperiência atrás das câmeras e divergências sobre a sua versão da história (entenda aqui) fizeram com que o substituto fosse substituído por um trio improvável: Justin Lin, cineasta que deu nova vida à franquia Velozes e Furiosos, Simon Pegg, o novo Scotty e corroteirista de filmes como Todo Mundo Quase Morto e Chumbo Grosso, que assumiu o script ao lado de Doug Jung (Banshee, Amor Imenso).

A troca ousada foi um acerto, como mostra Star Trek: Sem Fronteiras, uma emocionante e divertida homenagem à franquia que audaciosamente leva o público a novos ares, sem esquecer de onde veio. No final de Além da Escuridão: Star Trek, a tripulação da Enterprise se preparava para a sua missão de cinco anos. O novo filme começa com divertida narrativa sobre essa passagem “episódica” pelo espaço para depois revelar o desgaste criado pelo confinamento. Surge então o vilão, encarnado por Idris Elba, que tanto serve para remotivar a tripulação na sua jornada por diplomacia no universo como para criar uma conexão com o visual da série original.

Do primeiro contato com novas raças alienígenas (mais de 50 tipos de aliens aparecem no longa) a revelação de cenários grandiosos como Yorktown (a base espacial da federação), tudo é rodeado pelo espírito de aventura e descoberta que consagrou a franquia. Altamid, o planeta rochoso que abriga o segundo ato do filme, é um aceno ao visual dos planetas visitados pelo Capitão Kirk e Cia. na década de 60, quando a equipe da série de Gene Roddenberry precisava contornar restrições orçamentárias com criatividade. Fã da versão para a TV, o diretor Justin Lin sabe exatamente quando acenar ao passado e quando seguir em frente, combinando o visual retrô futurista com cenas de ação inspiradas e grandiosas.

A celebração da diversidade, sempre presente em Star Trek, é outra constante em Sem Fronteiras. A polêmica revelação sobre a sexualidade de Sulu (entenda aqui) é tratada com a necessária sutileza, mostrando um novo traço do personagem, sem defini-lo por isso. A adição de Sofia  Boutella como a alienígena Jaylah serve para equilibrar a equipe, que antes tinha apenas Uhura (Zoe Saldana) como representante feminina no elenco principal.  E, no melhor espírito da franquia, as entrelinhas revelam uma discussão sobre tolerância e conflito, sobre o verdadeiro significado de evolução: “Por que nem todos enxergam a paz como o melhor caminho?”.

A lista de homenagens também inclui um belo tributo a Leonard Nimoy, que faleceu em fevereiro de 2015, e ao elenco da série original. Cada aparição de Anton Yelchin (morto em um acidente em junho deste ano) agora parece carregada de uma inevitável melancolia, com o espírito otimista de Chekov em contraste com a triste realidade. Ainda assim, é uma bela participação do ator, que ganhou mais espaço em cena graças a habilidade de Pegg e Jung para coordenar todos os seus personagens - ao separar a tripulação no segundo ato, os roteiristas criaram novas interações e aprofundaram seus protagonistas.

Star Trek: Sem Fronteiras é uma homenagem à altura do legado de Gene Roddenberry. Todos os elementos que compõem sua criação são combinados em um filme prazeroso, que é ao mesmo tempo simples e complexo, aventuresco e filosófico. Um presente para os fãs e uma excelente porta de entrada para um novo público. O filme chega ao Brasil em 1º de setembro, no mês de aniversário da franquia (a primeira série de TV foi ao ar na NBC em 8 de setembro de 1966).

domingo, 17 de julho de 2016

Stranger Things é uma das melhores coisas que você verá este ano

Misture anos 1980, Steven Spielberg, ET, Stephen King, It, John Carpenter, Wes Craven, A Hora do Pesadelo, Halloween, Dungeons & Dragons, walkie talkies, John Hughes, Os Goonies, Beetlejuice, Evil Dead, Guerra Fria, Toto, Joy Division, Vangelis, The Clash, mix tapes… Coloque uma pitada de 2016. Pronto, você terá Stranger Things, a nova série do Netflix que estreou nesta sexta-feira (15) em todo o mundo.

Como você pode imaginar, essa mistura não tinha como dar errado. E não deu. Assistimos a todos os oito episódios da primeira temporada da produção, que foi criada por Matt e Ross Duffer e, cara, que SENSACIONAL.

Tudo começa na fictícia cidade de Hawkins, Indiana, onde os amigos Will (Noah Schnapp), Mike (Finn Wolfhard), Dustin (Gaten Matarazzo) e Lucas (Caleb McLaughlin) passaram horas e horas no porão jogando D&D. Parecia mais uma noite normal, só que, quando eles resolvem ir para casa, algo acontece. Um misterioso monstro ataca Will, que some misteriosamente. Este é apenas o início das “coisas estranhas”.

Joyce (Winona Ryder), mãe do garoto, vai até a polícia pra buscar ajuda. Inicialmente o Chefe Hopper (David Habour) dá de ombros, meio que achando que o garoto está bem e que a ela, separada do marido, é desleixada com os filhos. Porém, Hopper aos poucos vai se deixando levar pelo caso, muito por conta do próprio passado dele com a filha e a família. Uma busca que o leva a um misterioso laboratório do governo nos limites da cidade.

Ao mesmo tempo, Mike, Dustin e Lucas não desistem do amigo. Mesmo sem permissão, eles se juntam para EMPREENDER as próprias buscas, o que os coloca frente a frente com uma misteriosa garotinha de cabelo raspado, Eleven (Millie Bobby Brown), que pouco fala e tem uns poderes misteriosos. Como bem define o Dustin, ela parece uma X-Men. :D

Também tem Jonathan (Charlie Heaton), irmão de Will, que tenta racionalizar os fatos e distribuir fotos do garoto por aí, mas com pouco resultado. Ele chama a atenção da Nancy (Natalia Dyer), irmã do Mike e que, apesar de estar toda IN LOVE com Steve (Joe Keery), se sensibiliza com a história e passar a ajudar Jonathan.

Stranger Things

Assim, Stranger Things constrói quatro histórias paralelas, cada uma com um único objetivo – encontrar o Will – que vão descobrindo partes diferentes deste quebra-cabeça. Uma personagem é tida como maluca por todos, tentando se comunicar com o filho pelas luzes; o outro se vê em uma grande conspiração governamental; os adolescentes parecem que estão no meio de um filme de terror; e as crianças embarcam numa aventura digna de RPG, com superpoderes e dimensões paralelas.

Aos poucos, esses caminhos vão se encontrando e o quebra-cabeça ganha forma. A forma de um grotesco monstro sem face...

Um dos pontos mais interessantes de Stranger Things é que nenhum desses inúmeros personagens permanece “flat” durante toda a temporada. Mesmo que curta, com oito episódios, há tempo suficiente para todos eles evoluírem, amadurecerem e se tornarem, no final, algo diferente do que eram no começo.

Stranger Things não cai no mesmo erro de outra série feita por irmãs pro Netflix. Se em Sense8, por mais que haja uma evolução da história e dos personagens, o enredo principal de ficção científica é pouco resolvido, deixando um gosto de episódio piloto para toda a primeira temporada. Aqui os irmãos Duffer conseguem construir uma história com começo, meio e fim. Todos os mistérios e problemas propostos no primeiro episódio são, eventualmente, respondidos – por mais que deixem novas perguntas depois, que serão fatalmente o gancho de uma nova temporada. Como proposta de série, Stranger Things funciona bem.

Tudo isso embalado com roupas, músicas, decoração, estética e objetos de uma das décadas mais deliciosas da história da humanidade. A tal “década perdida”, que nunca foi isso, não é apenas um acessório, mas sim parte importante da história. Pra quem teve algum contato com aqueles tempos, essa sensação de nostalgia ajuda bastante a se deixar levar por tudo que é contado, identificando aqui e ali as referências.

Os atores ajudam, também. Winona Ryder tem uma energia incrível. A maior parte das cenas da atriz são fortes e desgastantes, dando a real dimensão do sofrimento de uma mãe que quer resgatar o filho de algo que ela não entende. Já Millie e Finn estão sensacionais como Mike e Eleven – é impossível não se encantar com os dois. Aliás, falando nos garotos, eles parecem aquele grupo de amigos perfeito, pra toda a vida, e dá pra ver um pouco da nossa própria infância ali. Outra que merece destaque é a Natalia Dyer – a Nancy é a personagem mais interessante de toda a série, com uma grande evolução e, na parte final, cenas ótimas.

Stranger Things é, desde já, uma das melhores surpresas de 2016. Daquelas que, mais uma vez, vai te fazer devorar todos os episódios rapidamente e, quando menos esperar, já estar contando os minutos pra ver a próxima temporada.

sábado, 16 de julho de 2016

The Last Kingdom - Série medieval estreia com a alcunha de "nova Game of Thrones”, mas se sustenta sozinha.

Com o fim cada vez mais próximo de Game of Thrones, os fãs de produções medievais já começam a buscar substitutas e a recente The Last Kingdom estreou sua primeira temporada com um pouco dessa expectativa. Apesar de ser recomendada para quem gosta da série da HBO, a nova atração consegue facilmente se sustentar sozinha.

The Last Kingdom se passa no que hoje conhecemos como a Inglaterra, mas antes era um conjunto de reinos menores e separados. A história começa quando os dinamarqueses, conhecidos como vikings na época, começaram a invadir esses reinos em busca de prata, escravos e, principalmente, um local para viver.

Nesse contexto há o jovem Uhtred, que nasceu como um nobre, mas foi sequestrado pelos dinamarqueses quando eles invadiram o local onde morava. O protagonista viu a morte da família e de todos que conhecia, mas acabou sendo criado pelo povo inimigo até a vida adulta, quase como um filho. Depois de muito tempo, Uhtred enfrenta novamente a morte de sua nova família e, sem ter mais nada que o ligue aos dinamarqueses, precisa decidir se vai tentar reconquistar o reino que um dia foi seu ou continuará servindo a outras famílias do seu novo povo.

Baseada nas Crônicas Saxônicas de Bernard Cornwell, a série acerta muito ao acelerar algumas partes da trama, incluindo a infância de Uhtred, que cresce rapidamente e tem a maior parte de sua história contada já na vida adulta. É difícil empatizar com Uhtred, que é teimoso e comete muitos erros apenas pelo que podemos chamar de "personalidade forte". Ele é insubordinado, exigente com seus direitos como nobre, que pouco valem depois de tantos anos, e pouco respeitoso na questão da religião, que também é um grande foco da produção. O intuito é mostrar que, apesar de forte, Uthred ainda é imaturo. Com o desenrolar da série, ele passa por várias provações e consegue evoluir, mas essa imaturidade acaba deixando o meio da temporada um pouco lento, dando a impressão de que estão sendo abordadas sempre as mesmas questões.

Ao longo de oito episódios, The Last Kingdom tem uma direção simples que não se arrisca muito, mas se sobressai em duas frentes: as passagens de tempo, que ficam bem claras apesar de não serem totalmente didáticas; e nos planos abertos, que valorizam as locações e a natureza da ambientação.

Outro ponto forte é o elenco. David Dawson faz o papel do Rei Alfredo, responsável por lutar contra os dinamarqueses e a favor dos reinos saxões. Vêm dele as melhores cenas e diálogos de toda a série - todos subestimam Alfredo que, com sua calma, consegue usar isso a seu favor, sem deixar de mostrar o quanto é forte. Nesse ponto, o protagonista Dreymon deixa um pouco a desejar, principalmente em cenas que pedem mais emoção. Porém, assim como Uhtred, ele claramente evolui com o decorrer da temporada e tem tudo para voltar melhor no segundo ano.

É preciso citar também a bela trilha sonora, que conquista desde a abertura (com uma música capaz de ficar na sua cabeça por vários dias); até às várias sequências quando consegue aumentar a emoção, tensão, ou alegria mostradas em tela.

O final da temporada acerta ao deixar abertura para os novos caminhos de Uhtred, mas fechando um arco que não seria prejudicado caso a atração não continuasse. Apesar disso, The Last Kingdom terá sim uma segunda temporada, dessa vez com o apoio da Netflix, e tem tudo para continuar por muitos anos e com seus próprios méritos.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Esquadrão Suicida - Qual o papel do Pistoleiro de Will Smith no filme?

Will Smith é conhecido por não gostar de dividir o seu tempo em tela. Foi o ator, por exemplo, que rejeitou o papel-título de Django Livre por considerar que o personagem era o coadjuvante do filme de Quentin Tarantino. Logo, sua escalação como Pistoleiro, um dos membros do Esquadrão Suicida, foi recebida com surpresa. Seria Smith capaz de “compartilhar seu protagonismo” em um filme de grupo?

No longa de David Ayer, Pistoleiro/Floyd Lawton será o líder afetivo do time de vilões, que oficialmente é comandado por Rick Flag (Joel Kinnaman) a mando de Amanda Waller (Viola Davis). Porém, com presenças marcantes como Coringa (Jared Leto), Arlequina (Margot Robbie) e até Batman (Ben Affleck), Smith dificilmente será o centro das atenções. Ainda assim, aceitou o papel pelo desejo de entrar no mundo dos quadrinhos da DC, explica Ayer, que procurou o ator justamente pela sua qualidade de liderança: “Ele tem esse carisma, é uma pessoa que atrai outras, então é o cara perfeito para liderar o grupo. Ele é um dos caras, não tem nenhum disparate de estrela de cinema. É o Pistoleiro perfeito, pois eles são vilões, mas não sabem que são vilões. São pessoas que fizeram péssimas decisões nas suas vidas e por conta dessas decisões são definidos pelos outros: ‘você é isso agora, você é mau’”.

Nos quadrinhos, o assassino de aluguel com a mira mais precisa do mundo apareceu pela primeira vez na Batman #59, em 1950. Nasceu como vigilante, passou a ser um supervilão e atualmente é retratado como um anti-herói, versão com se encaixa com o conceito de Esquadrão Suicida no cinema. Segundo Ayer, o filme é sobre “querer ter uma vida, querer ser feliz, ter uma família, mas ser tachado como uma pessoa ruim, que não tem direito a essas coisas. Essa é a luta deles”. Um arco de redenção que deve ter o Pistoleiro como figura central, constantemente confrontado com decisões sobre o certo e o errado dentro do time de vilões. Uma cena do filme, descrita pelo próprio Smith durante a visita do Omelete ao set do filme, em Toronto, mostra como será o comportamento do personagem - pare por aqui se não quiser spoilers.

“Vamos para Midway City em uma missão que apenas Flag sabe o que é. Precisamos resgatar um alvo valioso. Mas não sabemos de nada, não sabemos o que está acontecendo. E temos explosivos de nanotecnologia que foram injetados na base das nossas cabeças. Um de nós testou a teoria no começo do filme e não deu certo. Todos sabemos que funciona. Nessa cena chegamos ao ponto de troca e descobrimos que esse alvo valioso é Amanda Waller.

Estamos no telhado e do nada todos os nossos explosivos ficam verdes, o que quer dizer que estamos livres, e não sabemos o porquê. E no helicóptero que deveria resgatar Amanda Waller, viramos e vemos que o Coringa está lá e ele sequestrou o cientista que criou os explosivos. Agora estamos todos no telhado, com os explosivos desligados, pensando: ‘o que devemos fazer? Podemos matar todo mundo’. Então o Coringa resgata Arlequina, ela entra no helicóptero e eles estão prontos para fugir. Amanda Waller vem até mim e diz: ‘Eu lhe darei a sua liberdade e a sua filha se você colocar uma bala na cabeça dela’. Então, se matar Arlequina, estou livre”.

Ou seja, o desafio de Esquadrão Suicida é o equilíbrio. Pela descrição de Smith, Pistoleiro é o anti-herói em busca de redenção, responsável pela balança moral do longa (as armas e o uniforme com dizeres religiosos completam o perfil). O filme, porém, ainda precisa lidar com uma coleção de personagens diversos, incluindo um vilão (Adversário, que pode ter ligação com outro vilão, Lorde Satanus, ou com a própria Magia, interpretada por Cara Delevingne), um antagonista agente do caos (Coringa), uma coadjuvante que roubará a cena (Arlequina) e uma figura de autoridade (Amanda Waller). Se pender demais para um lado ou outro, o filme corre o risco de perder a unidade que um título com a palavra “esquadrão” promete. Desta vez, Will Smith pode ser o líder, mas não o protagonista.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

As Caça-Fantasmas

O novo Caça-Fantasmas (Ghostbusters, 2016) é um objeto estranho em meio a tantos blockbusters que jogam seguro e fazem refilmagens disfarçadas de continuações, para não desagradar os fãs velhos e tentar atrair os novos, de O Exterminador do Futuro: Gênesis e Jurassic World a Star Wars - O Despertar da Força e Independence Day - O Ressurgimento.
É essa cara de novidade que sustenta um filme que, no geral, não tem o mesmo vigor cômico ininterrupto das comédias anteriores que o roteirista e diretor Paul Feig fez com as atrizes Kristen Wiig e Melissa McCarthy, Missão Madrinha de Casamento e A Espiã que Sabia de Menos. Do timing das piadas ao arco dramático (sempre variações da ideia feminista de que uma mulher pode reconhecer na outra uma parceira e não necessariamente uma concorrente a invejar), Caça-Fantasmas sai perdendo nessa comparação, mas isso não significa que o filme faça feio diante dos dois Ghostbusters anteriores - pelo contrário.
Feig subverte a premissa do original e a atualiza sem deixar de prestar as esperadas homenagens. O filme de 1984 era obra dos anos Reagan: assim como em outras comédias que reconstruíam a confiança dos EUA pós-Nixon a partir da base, dos seus trabalhadores de colarinho azul, como Fábrica de Loucuras (1986), tínhamos no original uma equipe que operava como detetizadores e, aos olhos da prefeitura, eram párias demais para ter o reconhecimento da mídia e do restante dos novaiorquinos. Agora os Caça-Fantasmas são quatro mulheres, e o que Feig faz é transformar a disputa de classes numa disputa de gêneros.
E como faz: o filme junta a morena, a loira, a negra e a ruiva numa sucessão de provocações contra o status quo do machismo, ora pontuais e literais (as menções aos haters de caixa de comentários, o vilão virjão, o laser no saco do fantasma) ora sinuosas (o vocabulário científico jorrado pelas mulheres, o detector de fantasmas que é praticamente uma vagina de neon). No centro de Caça-Fantasmas está um discurso afirmativo que parte de um trauma (o filme tem uma pegada mais dramatizada que o original, para justificar o arco de superação da personagem de Wiig) para consumar o girl power, da forma mais literal (de novo) que um filme desses permite: com as nerds de macacão celebradas como rockstars no palco de um show.
Por mais que este Caça-Fantasmas pareça um filme de uma piada só, Feig coloca a serviço do empoderamento feminino todo o seu arsenal de autor, tanto de incorreções políticas quanto de sensibilidades de casting. Então ele não deixa de colocar Melissa McCarthy em situações que desmistificam os pudores sobre o corpo (a cena em que ela testa a mochila de prótons pela primeira vez é hilária), embora num grau menor do que em A Espiã que Sabia de Menos, e também escolhe os melhores atores para personificar o temível patriarcado (Charles Dance poderia ter sido melhor aproveitado).
Independente do que pense sobre questões de identidade de gênero, o espectador vai encontrar no novo Caça-Fantasmas um filme que não se limita a reembalar o velho em nome da nostalgia. Na verdade o grande tributo que Feig presta para o original é justamente não ousar replicá-lo.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

No dia rock um pouco de Eric Clapton

A vida para Eric Clapton nem sempre foi um mar de rosas, repleto de fama, sucesso e prestígio. Quem teve a oportunidade ler a sua autobiografia (lançada no Brasil, pela Editora Planeta), pôde aferir que o processo que antecedeu a sua carreira de cultuado guitarrista, não fora nada fácil.

A autobiografia retrata o lado humano de um artista reverenciado em todo o mundo, e nos faz perceber que não somos nada além de seres humanos falhos e em constante desenvolvimento, o que corrobora para que compreendamos que o ato mais importante da vida é cultivar sentimentos profundos e valorizar os postos preenchidos pelas pessoas que estão ao nosso redor.

Antes do fenômeno "Clapton is God" tornar-se um chavão corriqueiro na vida do guitarrista, o jovem britânico Eric Patrick Clapton, enfrentou inúmeros obstáculos durante a infância, e a sinceridade visceral com que o mesmo expõe estas mazelas, é o ingrediente principal do best-seller.

Com 70 anos completados no último dia 30 de março, Clapton já recebeu uma quantidade imensurável de homenagens, e é considerado hour concour quando o assunto é o domínio sob as seis cordas.

Dotado de um talento inquestionável, e um senso poético para compor trilhas sonoras que fizeram e ainda fazem parte da vida de milhares de pessoas espelhadas por todo o globo terrestre, Clapton é frequentemente vinculado ao rock n' roll. Porém, o guitarrista é muito mais do que isto. Clapton também é cultuado entre fãs de outras vertentes, como de reggae, pop, jazz e, principalmente, o blues.

Em sua biografia, Clapton revela circunstâncias extremamente íntimas e sensíveis sobre todas as fases de sua vida, incluindo a infância difícil vivida em Ripley (Surrey - ENG).

Em decorrência da Segunda Guerra Mundial, a economia mundial passou por uma crise econômica e financeira estarrecedora, e a família de Claton não passou imune ao fato. Habitante de uma pacata cidade do interior da Inglaterra, Clapton era oriundo de uma família que vivia às margens da pobreza extrema.

O pequeno "Ric" (apelido carinhoso que recebeu de sua família), sentia-se diferente diante dos seus familiares, e rotineiramente os viam tendo conversas misteriosas sobre o garoto.

Clapton acreditava ser filho de Jack e Rose Clapp, porém, mais tarde descobriu que a sua mãe biológica era, na verdade, Patricia Clapp, filha de Rose.

Patricia abandonou o filho, alegando que era muito jovem para assumir tal responsabilidade. A jovem havia sido abandonada pelo marido Edward, que quando soube de sua gravidez, tratou de enfatizar que não assumiria o filho de forma alguma. E a medida em que o jovem Clapton crescia, ficava cada vez mais difícil esconder a verdade do rapaz.

Há de se salientar que o talento de Clapton para música é proveniente das origens de seu pai biológico. Edward era um grande pianista, tendo conhecido Patricia em um bar, onde se apresentava ao lado de sua banda. Edward serviu a aeronáutica durante a Segunda Guerra Mundial, até que em 1944, o país fora tomado pelas tropas canadenses.

Eventualmente, Clapton e Patricia foram apresentados. No início Clapton acreditava que a jovem era sua irmã. A hipótese dela ser sua mãe não passava pela sua cabeça.

Ao descobrir a verdade, Clapton ficou possesso e tornou-se um adolescente reprimido, misantropo e preso à sua própria mente. Porém, posteriormente, compreendeu o ponto de vista de sua família, mas ainda sentia-se isolado e solitário em seu próprio ambiente familiar.

Quando Patricia desembarcou de uma viagem para rever os pais, o jovem Clapton esperava que sua mãe tentasse restaurar o vínculo entre ambos e dissesse que estava arrependida de tê-lo abandonado. Incomodada com a situação, Patricia, não apenas ignorou o jovem, como exigiu que o mesmo continuasse tratando seus avós como pais biológicos.

Perguntada pelo filho se podia ser chamada de "mãe", ela foi enfática: "Eu não sou sua mãe, não me chame de mãe".

A angústia do garoto era tão notória, que ele criou um personagem imaginário chamado "Johnny Malingo", e apegava-se com todas as suas forças em seu único amigo, um cachorro labrador chamado "Prince".

Quando encarnava "Johnny Malingo", Clapton enxergava-se como um "cidadão do mundo", mais leviano e corajoso do que a média. Em suas aventuras imaginárias, era acompanhado pelo cavalinho "Bushbranch".

O pequeno "Ric" criava estes momentos ilusórios para escapar da dura realidade que o assolava. Clapton sentia-se fora dos padrões convencionais da sociedade, tendo dificuldade pra encaixar-se em grupos sociais na escola.

Eric sentia-se frustrado, irritado e rejeitado, tendo desenvolvido traços psicológicos de depressão profunda. Mas aos poucos, percebeu que talvez tenha sido melhor assim, já que seus avós lhe deram mais amor e afeto do que a sua mãe poderia ter lhe dado. A única coisa que importava para Clapton é que, exceção feita a sua mãe, toda a sua família lhe oferecia um amor fraternal imensurável.

Além de contextualizar a infância, em sua biografia, Clapton também revela influências, parceiros, decepções, conquistas, traumas, etc.

A obra também aborda os seus períodos de dependência química, que quase o levou a morte, além de demonstrar como a perda de seu filho, fora definitiva para que Clapton se reerguesse. É provável que se esta tragédia não tivesse ocorrido, Eric jamais tivesse encontrado a motivação necessária para abandonar os vícios. Nestas circunstâncias, provavelmente, já teríamos perdido Clapton para outra dimensão.

Mas, e a expressão "Clapton is God", onde surgiu?

Esta expressão é oriunda de meados dos anos 60, quando alguns fãs picharam esses dizeres em alguns muros de Londres, tamanha devoção que os mesmo nutriam pela virtuose de Clapton.

Se Eric Clapton é Deus ou não, eu não sei. Mas a sua biografia mostra-nos, como pouquíssimos outros relatos, o seu lado humano. As suas qualidades, defeitos, falhas e acertos. Está tudo ali, explícito e enraizado em cada parágrafo, em cada página.

É um testemunho que vai muito além da áurea artística que paira sobre ele, porque a vida de um músico não é apenas subir no palco, e sim representar um outro ser humano por meio de uma mensagem, ou até mesmo um Deus, repleto de devotos espalhados por todo o planeta.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Ramones

Hey, Ho, Let´s Go! Hey, Ho, Let´s Go! É com esse famoso canto imortalizado da história do rock que venho convidá-los para uma aventura, onde vamos fazer uma verdadeira "excursão", embarcando em um ônibus chamado RAMONES. Isto se dá em um momento muito especial, afinal, no último dia 16 de Agosto fizeram exatamente 40 anos desde a primeira apresentação da banda no lendário CBGB em Nova York.

Pois bem, todos embarcados e devidamente acomodados em suas poltronas, vamos começar nosso tour voltando ao cenário embrionário da banda, ou seja, início dos anos 70. O mundo musical já tinha visto nascer e morrer gigantes do rock como Jimi Hendrix, Beatles e The Doors. Outros monstros sagrados como Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple escandalizariam o mundo com o até então desconhecido Heavy Metal. O cenário rock fervilhava a todo vapor, sendo considerado por muitos críticos ainda hoje, como a fase áurea do rock. Mas como vocês sabem, meus amigos, o rock é um vampiro, que para se manter vivo, vigoroso e na condição de imortal, precisa-se alimentar do frescor da juventude. São mesmo os adolescentes com a cara cheia de espinhas e que estão sempre entediados e revoltados com algo que nem mesmo eles sabem explicar, que fazem girar a roda do rock.


E neste contexto, em meados da metade da década de 70, três jovens adolescentes do subúrbio de Nova York mudaram para sempre o curso da história do rock. Isto se deu quando Douglas Colvin e John Cummings decidiram montar uma banda e resolveram chamar Jeffrey Hyman para este projeto (respectivamente, os nomes reais dos nossos Dee Dee Ramone, Johnny Ramone e Joey Ramone).

Estes jovens, assim como milhares de outros ao redor do mundo, não conseguiram se identificar com a mensagem dos grandes astros do rock daquela época. Estes, já contaminados pelo glamour da vida de famosos e milionários, ou ainda sob forte influencia de drogas pesadas, representavam muitas vezes uma imagem de semi-deuses superficiais, e muito disso acabou também se refletindo em suas músicas, com letras cada vez mais psicodélicas e abstratas, e seus instrumentais cada vez mais jazzísticos, apresentando um virtuosismo exagerado. Vejam bem: este estilo agradava em cheio a uma grande parcela de pessoas, muitos deles intelectuais, hippies, e outros gêneros "cults" daquela época, mas estavam muito longe da dura realidade de uma grande massa representada pela classe dos filhos de operários que moravam nas periferias das grandes cidades e que vivenciavam todos os dias as mazelas de um cotidiano sem muita perspectiva.

E são estes três rapazes nem um pouco populares, feios, sujos, mal vestidos e desajeitados que mostraram para o mundo uma lição jamais esquecida: que para o bem e a continuidade do rock é preciso sempre ter alguém que fale a linguagem do jovem, que possa representar sua dor, suas angústias, conflitos, e que tornam esta fase muito especial na vida de todos nós, a qual sempre se torna inesquecível.


E foi assim que os Ramones começaram. Contrariando toda a onda de virtuose e letras poéticas, lançaram o conceito Do it Yorself (faça você mesmo), empunharam seus instrumentos, e com um mínimo de preparo musical, mostraram para todos que com apenas três acordes, muita atitude e emoção, poderiam fazer com que sua mensagem chegasse direto ao cerne dos jovens, apresentando um novo gênero musical: O Punk Rock. E foi como lançar gasolina em um caldeirão de fogo. A partir daí, nitidamente influenciados pelos Ramones, surgiram outros grandes ícones do gênero, como o The Clash e os Sex Pistols, e ainda seria o pilar para um outro subgênero, o Hard Core Punk, representados por lendas como The Exploited e Dead Kennedys, entre inúmeros outros. Além disto, sempre liderados pelos Ramones, o punk foi uma grande influência para grandes bandas de rock alternativo que viriam depois, como U2, REM e Guns and Roses, e também de todo o movimento Grunge, bandas como Pearl Jam, SoundGarden e Nirvana já se declararam grandes fãs do gênero e especialmente dos Ramones.

Ao contrário do que muita gente pensa, o Punk não representa uma anarquia irracional e infundada, e não raramente é associado a movimentos como os Black Blocs, (vide últimas manifestações no Brasil e o que parte da imprensa divulgou...). Ledo engano, o Punk é muito mais que isso. O verdadeiro punk é uma diretriz de vida na forma de pensar. É o inconformismo com todo o Status Quo imposto pelo governo e pela sociedade. É um grito de revolta contra o abuso de poder, contra a corrupção, contra as regras pré-estabelecidas de uma sociedade capitalista e hipócrita, contra a desigualdade econômica, contra a censura, contra a manipulação e a luta pela liberdade de expressão. Em síntese, é um grande NÃO contra tudo que querem nos impor contra nossa vontade, e um chamado para que possamos sair da nossa inércia e lutar pelos nossos direitos.

Ideologismo à parte, voltemos ao Ramones. Foi no tablado do até então pouco conhecido e mal estruturado CBGB, um bar nova-iorquino que abria espaço para bandas urdergrounds da época, que o Ramones começou a ser mais visto e notado tanto pelo público como por outras bandas. Neste período, Thomas Erdelyi, vulgo Tommy Ramone, se juntou aos outros três bizarros nesta empreitada, e lançaram o homônimo RAMONES, em 1976. O álbum contou com 14 faixas e teve duração inferior a 30 minutos, algo inconcebível para a época. Clássicos do Punk Rock mundial como Blitzkrieg Bop, Judy is a Punk, Today you Love, Tomorrow the World, foram apresentados neste disco. A despeito da evidente simplicidade dos acordes e do ritmo como um todo, a energia que emanava das músicas, a emoção que saia da garganta de Joey e a atitude que estes quatro incompreendidos apresentavam no palco, além da forma de se expressarem e de se vestirem, contaminou a todos.

A partir deste debut, o Ramones lançou alguns dos mais memoráveis álbuns em sua história, em um período muito fértil entre 1977 e 1978, de onde surgiram os álbuns Leave Home (1977), Rocket to Russia (1977) e Road to Ruin (1978), estando representados nestes discos grande parte do repertório dos shows que aconteceriam até o fim da banda. Do álbum Leave Home, músicas como Gimme Gimme Shock Treatment, que causaram grande polêmica por abordar o tratamento de choque utilizado nas clínicas em pacientes com problemas psiquiátricos, Sheena is a Punk Rocker, que se tornaria um hino dos Ramones e do Punk Rock mundial, Pinhead, indispensável nos shows, e ainda a controversa Carbona Not Glue, censurada em vários países, e alimentando ainda mais o lado polêmico dos Ramones.

Mas a consolidação dos Ramones viria com dois petardos indispensáveis em sua discografia. Rocket to Russia tinha músicas como Rockaway Beach e Surfin´ Bird que mostravam todo o lado divertido sempre presente nos Ramones, a faixa I Don´t Care, com versos como "eu não me importo com este mundo, eu não ligo para aquela garota" ilustrando toda a rebeldia do grupo e sua posição frente as convenções sociais impostas. Contava também com a faixa Teenage Lobotomy, que a partir de sua letra controversa se tornou sucesso imediato. O disco Road to Ruin, traz sucessos como a pesada faixa I Just Want to Have Something do Do, o hit I Wanna Be Sedated e a linda balada Needles & Pins, cover dos Rolling Stones, um entre tantos covers que os Ramones tocariam desde o primeiro disco até o final da carreira. Vale uma parada aqui para registrar que esta sempre foi uma marca dos Ramones, nunca deixaram de prestigiar seus ídolos, nos brindando com belíssimos covers em versão Punk Rock! Este álbum também tem um importante marco para a banda, a entrada do batera Marc Bell, mais conhecido como Marky Ramone, em substituição a Tommy Ramone, que, cansado das turnês, resolve apenas continuar como amigo e produtor de discos. Marky cairia como uma luva no estilo dos Ramones, se tornando o baterista mais expressivo a passar pelo grupo.

O ano de 1979 foi o primeiro registro ao vivo, com o lendário álbum It´s Alive, provando a nítida evolução dos músicos com uma apresentação impecável a La Ramones: muita energia, atitude e com acordes tocados na velocidade da luz! Sem dúvida, um dos melhores registros ao vivo da banda em toda carreira. Chegaram os anos 80 na vida dos Ramones, e com eles também os primeiros conflitos mais sérios entre os membros (a esta altura, já contaminados pelo álcool e drogas), influenciados também pela pressão da gravadora em obter um maior sucesso do que estavam conseguindo até então.

Olhando hoje, parece inimaginável, mas nesta época, os Ramones, apesar de já possuírem uma legião de fãs fiéis por todo o mundo, ainda eram evitados em várias rádios, revistas, e televisão então, nem pensar. A ligação com o movimento punk também contribuiu com isso, o tradicionalismo ainda imperava na imprensa como um todo. Para reverter este cenário, a banda decide então investir pesado na contratação de um produtor renomado, Phil Spector, produtor de albuns solos de John Lennon e George Harrison. Se arriscaram pela primeira vez em uma mudança de som, na tentativa de torná-lo mais radiofônico. Nesta linha de raciocínio, lançaram End of The Century (1980) e Pleasant Dreams (1981). Infelizmente, o tão esperado sucesso comercial pela gravadora ainda não viria, e ainda traria a tona algumas críticas de fãs mais conservadores.

O resultado também não agradou nada aos integrantes da banda. Cabendo aqui (ou não) um pitaco pessoal, mais como fã do que como pretenso jornalista que de fato não sou, vejo estes dois álbuns como bons sim, tanto pela tentativa de mudança, que em alguns casos é maléfica, mas em outras situações apresentam faixas surpreendentes, como também por exibir canções emblemáticas do grupo. End of the Century traz a conhecida Do you Remember Rock ´N´ Roll Radio, This Ain´t Havana e ainda a divertidíssima Rock ´N ´Roll High Scholl, esta última trilha sonora de um filme estrelado pelos Ramones, bancado pelo próprio bolso dos músicos. Quem não viu, esta perdendo uma boa oportunidade de dar boas risadas... Pleasant Dreams talvez seja ainda o álbum mais criticado, por possuir menos faixas raivosas de puro punk, e mais baladas. Um grande pecado, pois faixas como We Want the Airwaves fizeram um relativo sucesso e ainda rendeu um bom clipe, e as tardiamente reconhecidas excelentes baladas como The KKK Took my Baby Away e "7-11".

Nos anos seguintes, lançaram Subterranean Jungle, algum que reforça a retomada da essência dos Ramones, com a ultra-clássica Psyco Therapy e com uma espetacular novidade: Dee Dee Ramone se arriscando pela primeira vez como cantor principal em uma faixa de sua autoria, Time Bomb. Como nem tudo são flores, após finalizar este álbum, os Ramones tiveram também uma perda momentânea: a saída de Marky Ramone, indo direto para a reabilitação devido problemas com drogas e álcool. Entraria Richard Reinhardt, com a alcunha de Richie Ramone. Too Tough to Die (1984) e Animal Boy (1986) seguiram a mesma linha e tiveram boa repercussão. No ano de 1987 os Ramones lançaram Halfway to Sanity, que apesar do hit I Wanna Live, acabou sendo considerado pela crítica musical da época como um fracasso. Nem por isso o prestígio do grupo foi abalado, os Ramones continuavam sendo aclamados em várias partes do mundo, e neste mesmo ano a banda se apresentaria pela primeira vez em um palco brasileiro (no Palace, em São Paulo-SP).

A esta altura, o fanfarrão Richie Ramone literalmente abandona a banda porque havia conseguido dar o golpe do baú em uma milionária, achando assim uma forma mais fácil de ganhar a vida. Chamado às pressas, Clem Burke, baterista do Blondie, se transformaria em Elvis Ramone, e faria o papel de "tapa buraco" por apenas dois shows, mas o suficiente para escrever o seu nome na história apenas pelo privilégio de um dia poder ter o famoso sobrenome. Seu estilo de tocar bateria simplesmente não se encaixou na banda, então resolveram dar uma segunda chance ao ainda recuperando Marky Ramone, que sabiamente, não largou mais as baquetas do grupo.

E como diz o ditado "água mole em pedra dura....", os Ramones finalmente conseguem o seu tardio reconhecimento comercial, a partir do lançamento do espetacular álbum Brain Drain, lançado em 1989, e muito também pela música Pet Sematary que virou tema do filme de Stephen King, Cemitério Maldito, e que imediatamente ganhou um clipe na MTV. Os Ramones estouram de vez, com um álbum recheado de grandes faixas do início ao fim, e apenas para citar algumas, I Believe in Miracles, Palisades Park, e o lado humanista dos Ramones em Merry Christmas (I Don´t Wanna Fight Tonight). Mas como parece que a felicidade nunca pode ser completa, após a turnê deste álbum, Dee Dee anuncia sua saída da banda, divido ao cansaço das viagens e o tratamento para dependência química. Dee Dee continuaria sendo um "quinto Ramone" até o fim do grupo, com várias colaborações nos álbuns seguintes. Para seu lugar, o super carismático e não menos competente Christopher Joseph, C.J. Ramone, que não deixaria a peteca cair e ainda manteria a tradição do antigo baixista em colaborar como voz principal em algumas músicas.

Para não perder tempo e mostrar a excelente adaptação de C.J., em 1991 é lançado o segundo ao vivo: o estupendo Loco Live. Sujo e agressivo, mostrava um peso e energia surreais mesmo para os Ramones. E para não pairar nenhuma dúvida e não deixar pedra sobre pedra, o Ramones grava o aclamado Mondo Bizarro (1992), um dos maiores discos da história da banda, que, de tantos clássicos, não merece citação especial para nenhuma faixa (tá bom, vou falar só de Take it as it Comes, só porque é um cover do The Doors...). Do início ao fim do disco, são canções mais que consagradas da discografia dos Ramones. No ano seguinte, já bastante habituados aos covers, resolvem relaxar e lançar um álbum completo de músicas de seus grandes ídolos, no disco Acid Eaters. Imagine estilizar ao modo punk artistas como The Who, Rolling Stones, The Animals, Creedence, entre outros... O resultado é um álbum espetacular, mas de pouca repercussão.

No ano seguinte, mais uma vez uma triste notícia abala os Ramones: Joey descobre um câncer, e, devido seu debilitado estado físico, já começa a planejar o fim da banda. Lançam então, em 1995, o álbum Adiós Amigos! , que como diz o próprio nome, já anunciava a triste despedida. Musicalmente falando, trata-se de um grande álbum, fechando com chave de ouro uma carreira brilhante. Mais que destaque para faixas como I Don´t Want to Grow Up, It´s Not for Me to Know, Scattergun e Born to Die in Berlin. Seria realizada ainda uma turnê de despedida e mais o terceiro álbum ao vivo, Greatest Hits Live, como atrativo a faixa Spiderman e a faixa R.A.M.O.N.E.S, gravada pelo Motorhead como evidente homenagem. O último show ocorreria em 6 de agosto de 1996, em Hollywood, e contaria com participações muito especiais, como Eddie Vedder, Lemmy Kilmister, Chris Cornell e Dee Dee Ramone. Após isto, lançariam a caixa box We´re Outta Here (1997), com mais um registro ao vivo.

Os anos que se seguiram foram ainda mais tristes, com o acontecimento das respectivas mortes de Joey, Johnny, Dee Dee e Tommy. Felizmente, Marky e C.J. ainda estão na ativa e nos brindam com suas bandas, com realização de frequentes shows inclusive no Brasil. Amigos, chegamos de volta de onde saímos nessa excursão, e espero que estas 48 horas andando de ônibus tenham passado rápido para vocês (hehehe). Confesso que para mim nada custou ter relembrado um pouco de uma das maiores lendas da história do rock mundial, uma banda icônica que quebrou barreiras e ainda conseguiu ser quase que uma unanimidade, atingindo de forma rara o respeito em todos os meios do rock, seja heavy metal, thrash, death, hard rock, pop, grunge, etc. De tão importante, virou até referencia na moda (hoje em dia andar com camiseta do Ramones é fashion, apesar da maioria das pessoas que trajam não conhecerem sequer uma música....). O fato é que, quase aos quarenta, e com aparente amadurecimento musical, ainda me divirto como se aos treze anos, toda vez que coloco o Ramones pra tocar na vitrolinha. GABBA, GABBA, HEY!

The Night Of é a arma secreta da HBO para 2016



Muito tem sido dito sobre o "problema de drama" que a HBO está vivendo no momento, especialmente depois da 2ª segunda temporada morna de True Detective e do cancelamento da renovação de Vinyl. Quando The Leftovers terminar, o canal que um dia exibiu Família Soprano e The Wire não vai ter um drama regular. Claro que ainda vão existir coisas como Game of Thrones, mas a HBO sempre foi conhecida por ser o canal dos grandes seriados dramáticos. Nos últimos anos, com a ascenção de AMC, FX e outros, isso tem mudado. 

E então chega The Night Of, uma minissérie produzida por James Gandolfini, que recebe crédito póstumo como produtor executivo, e que é claramente filha das séries de crime que dominaram a programação da HBO nos anos 2000. Assim como True Detective em sua primeira temporada, The Night Of impressiona por sua qualidade narrativa, de direção, fotografia e atuação. Em outras palavras, é um pacote completo. A história, por sua natureza, instiga conversa, discussões e teorias, e o episódio de estreia, com sua 1h20 de duração, é um dos grandes suspenses da televisão este ano. 

A noite em questão começa quando Nasir "Naz" Khan (Riz Ahmed), um americano descendente do Paquistão, decide pegar emprestado - sem avisar - o taxi do pai para ir numa festa depois um colega acaba furando com ele. Naz não está nem um pouco familiar com a vida de taxista, e nem sabe ligar a luz de off duty. Como resultado, pessoas acabam entrando no veículo e ele é forçado a chutá-las pra fora do carro. Exceto quando a jovem atraente Andrea (Sofia Black D'Elia) pede carona. Naz não consegue negar e acaba fazendo o que ela pede. Ele vai num super mercado comprar cerveja, para junto de um rio para olhar a cidade e eventualmente vai para casa dela. Depois de algumas brincadeiras estranhas e, claro, drogas, as coisas dão absurdamente errado. 

No momento em que a garota entra no carro, fica claro que as coisas estão caminhando para um problema. A câmera mostra de forma sutil - e, de vez em quando, de forma clara - como Naz está basicamente cavando sua própria cova com algumas atitudes que ele toma durante a noite. Mas The Night Of não deixa passar a imagem de que Naz é um idiota, o que faria a audiência criar uma barreira com ele. Grande parte disso vem das atuações. D'Ella atua perfeitamente como aquela garota problemática que puxa você de forma inexplicável, e Ahmed, assim como no excelente O Abutre, mostra um grande carisma em suas cenas.

A série nunca retrata o protagonista como alguém totalmente desligado, mas ele esteve no lugar errado, na noite errada, com a pessoa errada. Inclusive, a construção da história é feita de uma forma brilhante. Quando Naz acorda e vê o corpo morto, brutalmente esfaqueado, da garota, nós não estamos surpreso, mas não é isso que os co-criadores Richard Price (The Wire) e Steve Zaillian (Gangues de Nova York) querem fazer. A tensão vem justamente porque Naz é um ótimo personagem que automaticamente nos conquista com seu charme e jeito meio atrapalhado, e quando nós percebemos que ele está cegamente caminhando em gelo fino, a respiração trava. 

Não vamos entrar em cada detalhe da história do piloto, que se passa inteiramente na noite da morte, mas a polícia eventualmente aponta Naz como suspeito depois de um acontecimento que mostra o espetacular senso de humor pertubado e quase canalha da série. Nesse processo, conhecemos outras figuras importantes, como o detetive Dennis Box (interpretado de forma sutil e perfeita por Bill Camp) e, finalmente Jack Stone (John Turturro). Stone é um advogado daqueles que ganha a vida com presos da madrugada que cometeram crimes idiotas e foram parar na delegacia.

O papel, originalmente, era de Gandolfini, e é impossível não imaginar o que Tony Soprano faria aqui, mas Turturro, em seus poucos momentos no primeiro episódio, faz um excelente trabalho e cria, junto com o roteiro, um peso tremendo para o advogado, que poderia, tranquilamente, ser o protagonista de The Night Of - algo que pode muito bem se tornar realidade nos próximos episódios, quando o foco se torna o processo de julgamento de Naz, e Stone passa a ser uma figura importante no meio de toda a tempestade legal nos tribunais e na cadeia. 

Finalmente, precisamos falar da fotografia brilhante de Robert Elswit. O homem responsável por filmar O Abutre e Sangue Negro - filme pelo qual ele venceu seu único Oscar até agora - captura a noite nova-iorquina de maneira visceral. Você pode sentir a textura e o cheiro da cidade, sua opressão, seu brilho e sua sujeira, em cada cena. 

The Night Of começou muito bem. O primeiro episódio vai ao ar na HBO neste domingo (10) e a série segue semanalmente depois disso. Por mais que ela tenha sido jogada como uma produção cuja principal função é preparar o terreno entre Game of Thrones e Westworld, não vai ser surpresa se ela tomar à frente como uma das principais forças do canal em 2016.